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Segunda-feira, Março 12, 2007

 
Quem é famoso de verdade?
por ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR.

CONHECE A música do assobio? Eu não conhecia. Ou melhor, conhecia, mas não sabia quem cantava, por isso consultei duas figuras de ilibada reputação indie. A primeira: "Toca em todas as pistas, e não suporto música com assobio". A segunda: "É hit do verão... [achei que eu tinha mandado bem] ...passado".

A música se chama "Young Folks", de Peter, Bjorn & John. Concluí: Peter, Bjorn & John são famosos. Será?

*


Quando ainda existia o programa de rádio "Garagem", levei para tocar uma canção que achei genial: "The Light 3000", cover dos Smiths, por Schneider TM vs. Kpt.Michi.Gan.

Pensei que era o máximo. Mas não só meus dois parceiros já conheciam como até tinham tocado.

Concluí: Schneider TM e Kpt.Michi.Gan eram famosos. Será?

*


A revista do "New York Times" de 4/3 traz longa reportagem com a banda Arcade Fire. Quando os vi pela primeira vez, em Los Angeles, em dezembro de 2004, o clube Spaceland, para umas 300 pessoas, estava lotado. Imaginei que o Arcade Fire já era famoso. Mas pensei melhor lendo esse texto irretocável. Venderam 750 mil cópias do primeiro CD, "Funeral", pelo pequeno selo Merge, tocaram no Conan O'Brien e no "Saturday Night Live".

Concluí: agora, sim, o Arcade Fire ficou famoso.

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Nesta página, o baterista do Cansei de Ser Sexy, Adriano Cintra, ataca "Escuta Aqui" da semana passada. Na coluna, eu critiquei a cobertura, que considero excessiva e aduladora, que a banda recebe da imprensa brasileira, Folha à frente. Adriano rejeitou meus pontos de vista e defendeu a atenção -"profissional e íntegra"- que o jornal lhe dá. Deve ser a primeira vez desde Gutenberg que um artista escreve a um jornal não para reclamar da cobertura que recebe, mas para declarar apoio. Obrigado, Adriano: era esse mesmo meu ponto.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 12/03/2007.
posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:31 PM

 
[réplica]

"Coluna do Álvaro foi tendenciosa e egocêntrica"

Baterista do Cansei de Ser Sexy responde às críticas

ADRIANO CINTRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O senhor Álvaro Pereira Júnior parece estar muito incomodado de não ser dele a cobertura de nosso sucesso no exterior. Em vez de reclamar sobre a suposta superlativa cobertura de nossos feitos no exterior pela Folha daqui do Brasil, por que ele não pega um avião e vai checar isso de perto? Estaria ele esperando o convite da nossa gravadora, com passagem de primeira classe e hotel cinco estrelas? Seu texto é tendencioso.

Diz que "algumas críticas publicadas, especialmente nos EUA, foram bem negativas...". Sim, algumas foram negativas, mas o triplo foi positivo.

Insinua que ninguém lembra da nossa música, destacando que as tais publicações que ele nem se deu ao trabalho de nomear diziam que nosso som era "derivativo de Le Tigre e Tom Tom Club, para ficar só em dois exemplos". Pelo que eu saiba quem falou que nosso som era cópia de Le Tigre (e Peaches) foi ele mesmo.

Nosso disco figurou em várias listas de melhores do ano de 2006. Ficou entre os 20 primeiros na "Uncut", revista que não costuma levar em conta hypes e outras coisas feias parecidas. Isso, por acaso, foi notícia para ele? Não. É claro que ele prefere omitir esse tipo de informação para convencer os leitores do Folhateen que ninguém liga pra nossa música e fazer pouco caso de nossos shows nos EUA.

Sim, temos mais sucesso na Europa, que engloba 47 países, na maioria dos quais já tocamos e temos muitos fãs, da Finlândia à Grécia. Nos Estados Unidos, é raro estarmos na rua e vir alguém pedir autógrafo. Mas lá, temos muitos fãs, que escrevem alguns dos blogs de música mais importantes do mundo, como o Music for Robots (de Nova York, music.for-robots.com) e o Pitchfork (de Chicago, www.pitchforkmedia.com).

Agora, no segundo semestre, vamos tocar nos mais importantes festivais, como o Coachella e o Lollapallooza, para logo depois fazermos nossa terceira turnê pelo país.

Uma coisa que ele precisa entender é que nós não somos e nem queremos ser o U2. Ou o Coldplay, que nos convidou para abrir o show aqui do Brasil e nós negamos. Acabamos de negar um convite do Muse para abrirmos no Wembley Stadium. Nós só nos envolvemos com coisas que realmente acreditamos.

Temos trabalhado como loucos nos últimos nove meses, fizemos mais shows do que qualquer banda nacional, estamos muito felizes e seguros que estamos fazendo a coisa certa, dando um passo de cada vez, e é muito frustrante uma pessoa tentar nos difamar desse jeito sem estar acompanhando de perto o que está acontecendo.

Quando eu li essa coluna, me senti como no dia em que fui tirar a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil e a Dona Eulália (a encarregada de decidir se você era músico ou não, um autêntico bastião dos tempos da ditadura) me humilhou e só acabou me dando a maldita carteirinha de músico depois de um bate-boca infernal de 15 minutos. Nesse dia, achei que ia acabar sendo preso por não saber tocar uma rumba na bateria...

(Essa sensação de déjà vu foi mais forte quando ele sugeriu que, para termos o direito de figurar com dignidade nas páginas da Folha, nós precisaríamos ganhar um Grammy. GRAMMY, TIO? Por favor...).

Outra coisa que mostra o quão distante é o mundo dele do nosso: o tal "mercado que interessa". Se, para ele, nosso sucesso não é legítimo porque não conquistamos o mercado americano, bem, então tá. Depois nos chamam de colonizados por cantarmos em inglês...
Podemos não vender tanto nos EUA quanto na Europa, mas a Sub Pop está muito contente conosco.

Esse tipo de jornalismo egocêntrico e negativo combina muito mais com um blog do que com um jornal. Eu não entendi de onde veio essa bronca toda com a Folha por ela estar cobrindo nosso trabalho de forma tão profissional. São tantas bandas internacionais mencionadas sempre na Folha, algumas delas bem menores que o CSS...

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Adriano Cintra, 32, é produtor, baterista e irmão mais velho do CSS.
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Reproduzido da Folha de S. Paulo de 12/03/2007.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 1:28 PM


Segunda-feira, Março 05, 2007

 
CSS e Coldplay navegam no hype

por ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR.

NA SEMANA PASSADA, o Folhateen deu reportagem de capa para a banda paulistana Cansei de Ser Sexy. Com ajuda do computador quântico inaugurado mês passado no Canadá, calculei que essa foi a 106.575 vez que a Folha publicou um texto festivo e favorável a esse grupo brasileiro que faz muito sucesso no circuito indie europeu.

Ainda na semana passada, duas resenhas sobre os shows do Coldplay em São Paulo chamaram a atenção. Uma de Sylvia Colombo, na Ilustrada, outra de Luís Antônio Giron, no site da revista "Época". Ambas exemplares destoantes do clima de quermesse e oba-oba que reina em nossa imprensa cultural. Eram críticas demolidoras, e muito bem fundamentadas, à banda de Chris Martin. "Sessão arrastada de lamúrias coletivas", disparou a Sylvia. "Estilo semigospel", avaliou Giron.
No início de seu texto, Giron reclamou do entusiasmo com a que imprensa paulistana, especialmente a on-line, embarcou na onda dos fãs e se ajoelhou diante do Coldplay. E alertou: "O entusiasmo da platéia não tem nada a ver com o que se passa de fato no palco".

Essa observação nos leva de volta à cobertura laudatória que cerca cada passo do Cansey de Ser Sexy. A banda é o máximo porque o público vibra loucamente. A banda é o máximo porque a imprensa indie britânica a eleva aos céus. Objeto e meio se dissolvem num plasma indistinguível. A música? Quem se lembra dela?
É delicado, neste momento, falar de CSS. Não quero me juntar à legião de invejosos que não aceitam o sucesso da banda e, mesquinhamente, ficam daqui do Brasil torcendo contra. No ano passado, quando as meninas saíram para a turnê americana, dei meus parabéns e escrevi que só isso -tocar em clubes bacanas dos EUA- já era mais do que qualquer banda independente brasileira tinha conseguido.

Mas a excursão americana era só o início. O CSS aconteceu mesmo na Europa. Com os contatos certos e muita disposição, a banda caiu nas graças da máquina de hype: o semanário "NME", a revista "Les Inrocks" e mesmo a grande imprensa de Londres simpatizaram com o CSS. Os reflexos não demoraram a chegar ao Bananão (obrigado, Ivan Lessa).

Tudo isso, é claro, acompanhado pela Folha da maneira mais superlativa. A turnê americana pelos EUA foi tratada como glória absoluta (escondida lá embaixo num texto, a informação de que um show chegou a ser cancelado por falta de público). A chegada à Europa foi descrita de modo não menos triunfal.
Curiosamente, na reportagem do Folhateen, vemos que a Warner quer relançar o primeiro disco do CSS, agora com um esquema mega. Mas para que isso, se, como nos ensina a imprensa brasileira, o jogo já está ganho, EUA e Europa só falam no CSS, só pensam no CSS?

Vou explicar: porque o sucesso do CSS, embora real, inédito e legítimo, é menor do que pode parecer, visto aqui do Brasil. O CSS, por enquanto, bombou no circuito indie europeu, não muito mais do que isso. Algumas críticas publicadas, especialmente nos EUA, foram bem negativas, destacando a falta de nuances do vocal da Lovefoxxx, a pouca coesão das composições, a produção simplória, as letras infantis e o fato de o som ser bastante derivativo de Tom Tom Club e Le Tigre, para ficar só em dois exemplos (e para usar uma palavra branda, "derivativo").

É claro que tudo isso pode mudar: eles podem arrebentar nos festivais europeus de verão, podem ficar famosos no mercado que interessa (os EUA), tocar no programa do David Letterman, abrir a turnê de um artista grande com simpatias pelo Brasil (Beck, por exemplo), ganhar rios de dinheiro, faturar um Grammy...
Tudo isso, é claro, a Folha vai ter de cobrir. E, aí sim, terá razão.

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 05/03/2007.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 6:45 PM


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