Solobonite

archives


Sábado, Agosto 26, 2006

 
Faça amor, não faça guerra

Autor que revolucionou o universo dos quadrinhos, Alan Moore fala à Folha sobre seu novo trabalho, "Lost Girls", uma "graphic novel" erótica.

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

Em "V de Vingança", o quadrinista britânico Alan Moore, 52, numa crítica ao Reino Unido de Margaret Thatcher, retratou o que aconteceria a Londres se um misterioso mascarado usasse técnicas terroristas para combater um regime totalitário. Mais de 20 anos depois, Moore abandona a retórica agressiva, se volta ao quadrinho erótico e propõe: "Faça amor, não faça guerra".

No fim de julho, ele lançou nos EUA "Lost Girls", "graphic novel" em que promove o insólito encontro de três personagens infantis já adultas: Alice, do País das Maravilhas; Dorothy, de Oz; e Wendy, da Terra do Nunca, numa HQ assumidamente pornográfica, ainda sem previsão de chegar ao Brasil.

"Em muitos sentidos "Lost Girls" é mais eloqüente do que os outros livros que fiz. Ele é tanto pró-sexualidade e liberdade de expressão quanto fortemente antiguerra. Fala das maravilhas da imaginação sexual e também retrata a guerra como a ausência absoluta e fracasso da imaginação. A imaginação é algo que cria arte e beleza. A guerra destrói a arte e a beleza", diza Moore em entrevista, por telefone, à Folha.

"As guerras destroem não somente belos edifícios, mas dizimam milhões de jovens e alguns deles poderiam se tornar poetas, escultores, pintores, grandes artistas. "Lost Girls" é pornografia, mas também pode ser um recado importante, especialmente para os EUA."

Mix de moças

Moore levou 16 anos para finalizar "Lost Girls". Há tempos ele acalentava a idéia de dar contornos eróticos a Wendy, pois via uma conotação sexual em "Peter Pan": "Há muitas cenas de vôo no livro, e Freud dizia que sonhos de vôo são sonhos de expressão sexual".

A idéia de reunir Wendy, Dorothy e Alice só surgiu depois que Moore conheceu Melinda Gebbie, artista da cena de quadrinhos underground da Califórnia, apresentada a ele pelo amigo comum Neil Gaiman, autor da série "Sandman". Hoje namorada de Moore, Gebbie ilustrou o livro, que tem cenas de sexo em quase todas as suas 400 páginas.

Juntos, o casal estabeleceu idades imaginárias para as personagens, baseadas nos anos em que foram publicados os livros originais. Com isso, Alice seria a mais velha, Dorothy, a mais jovem, e Wendy, a do meio. Quando procuraram uma época em que nem Alice seria muito velha, nem Dorothy muito nova, acharam um período "bastante explosivo", entre 1913 e 1914.

"Poderíamos ter a Primeira Guerra e a primeira apresentação de "A Sagração da Primavera", de Igor Stravinski, na ópera em Paris, como pano de fundo para nossa história colorida. Percebemos que as personagens seriam perfeitas porque queríamos falar da imaginação especificamente a sexual. E não há personagens melhores, ou mais conhecidas, do que elas. A maioria de nossos leitores já leu quando criança. Eles terão ligação emocional também."

Gebbie conta que evitou retratar o sexo de maneira "clínica". Evitando contornos escuros, deu às personagens um ar onírico. Moore quis fugir, na forma e no conteúdo, do convencional, para criar algo "poderoso e sexy" -com direito a sexo grupal.

"Tentamos uma exploração da imaginação sexual. Mas não queríamos apelar apenas à imaginação dos homens heterossexuais, para os quais a maior parte da pornografia se dirige. Queríamos nos voltar para o material erótico produzido durante os períodos eduardiano e vitoriano, que era mais polimorfo. Assim, decidimos que o livro teria um apelo maior para as mulheres. Nós queríamos uma pornografia que se voltasse para diferentes sexualidades. Não podemos afirmar que somos tão abrangentes, mas tentamos abordar tantos gostos sexuais quanto possível."

Direitos

O empréstimo de personagens de outros autores é comum na bibliografia de Moore, que agora prepara mais um livro da série "A Liga Extraordinária". No entanto, a licença poética com os personagens de Lewis Carrol (Alice), John Barry (Wendy) e Lyman Frank Baum (Dorothy) vai esbarrar na questão dos direitos autorais de "Peter Pan" no Reino Unido. O hospital Grear Ormond Street, que detém os direitos sobre a obra de John Barry lá e na Europa, já divulgou nota em que considera seu uso "inapropriado".

Moore defende-se dizendo que ele e Gebbie tomaram "muito cuidado" para serem fiéis aos personagens. "Nossa Alice ainda tem bastante de sua curiosidade e do surrealismo de Carrol. Wendy é muito como a moça de classe média criada por Barry. E Dorothy tem muito do senso aventureiro e ousado da heroína original. Não sugiro que os autores pretendiam um viés sexual em suas histórias. Mas, como todos autores de fantasias, eles tiraram seu imaginário do inconsciente. Seria estranho se não houvesse símbolos ou imagens que não tivessem interpretação sexual em potencial, não?"

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 26/08/2006.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 10:41 AM

 

"Indústria americana rouba criadores"

DA REPORTAGEM LOCAL

A editora Via Lettera acaba de lançar no Brasil o quarto volume da série "Watchmen", HQ que injetou força literária nos quadrinhos. Moore, no entanto, não quer falar sobre a obra: "É propriedade roubada", diz, referindo-se aos detentores dos direitos internacionais. "Desculpe se pareço amargo, mas não tenho nenhuma conexão com ela."

Os atritos de Moore com a indústria da HQ começaram nos anos 80. Com a DC Comics, por problemas no pagamento de direitos autorais e "censura etária" a "V de Vingança"; com a Marvel, pois a gigante forçou a mudança do título da HQ "Marvelman" para "Miracleman", nos EUA. O quadrinista acusa a indústria americana dos quadrinhos de "roubar os criadores". "É como eles faziam negócios desde os anos 30, quando muitas das companhias foram criadas por gângsters", conta Moore. "Quando o álcool era proibido, muitos contrabandistas achavam que seria bom negócio ter editoras no Canadá. Lá não havia lei seca. Assim, os caminhões poderiam trazer para os EUA, além das revistas, bebidas alcoólicas no fundo. Todos os personagens americanos de HQ foram efetivamente roubados dos criadores. Isso aconteceu com "Watchmen" e "V de Vingança'".

A briga de Moore com a indústria do HQ se estendeu a Hollywood. Após a estréia do filme "A Liga Extraordinária", ele decidiu associar mais seu nome ao cinema. "No começo ficava contente de receber o dinheiro e não ter muito a ver com o filme. Queria que saísse algo bom, mas inevitavelmente era uma distorção." (ES)

Reproduzido da Folha de S. Paulo de 26/08/2006.

posted by RICARDO MALTA BARBEIRA 10:39 AM


This page is powered by Blogger. Isn't yours?